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Quando sair deixa de ser simples, o que acontece com a convivência?


Envelhecer bem sempre esteve associado a sair.

Sair para caminhar. Sair para encontrar amigos. Sair para fazer atividade física. Sair para manter a mente ativa.


O envelhecimento ativo, durante décadas, foi pensado a partir da ideia de deslocamento:

de casa para o mundo.

Mas o que acontece quando esse deslocamento deixa de ser simples?


Quando dirigir se torna inseguro. Quando o trajeto até uma atividade exige ajuda. Quando o medo de cair passa a fazer parte da rotina. Ou, simplesmente, quando a energia já não é a mesma de antes?


A casa passa a representar segurança.


Mas, com o tempo, também pode representar:


  • menos encontros

  • menos conversas

  • menos estímulos

  • menos rotina compartilhada


Sem que ninguém perceba exatamente quando isso aconteceu, a convivência deixa de fazer parte do cotidiano e passa a ser limitada a momentos pontuais:


  • uma visita no fim de semana

  • uma ligação rápida

  • uma mensagem no meio do dia


O cérebro não envelhece apenas com o tempo, envelhece com a ausência de interação


Grande parte do que preserva nossas funções cognitivas ao longo do envelhecimento está diretamente relacionado à nossa participação em atividades que envolvem:


  • troca social

  • aprendizado

  • feedback em tempo real

  • engajamento coletivo


Conversar, aprender algo novo em grupo, participar de uma atividade guiada ou até mesmo reagir a um estímulo compartilhado exige do cérebro a ativação simultânea de múltiplos circuitos neurais, incluindo:


  • o hipocampo

  • o córtex pré-frontal

  • o sistema límbico

  • redes de atenção executiva


Esse tipo de ativação está associado à manutenção da memória episódica, da função executiva e da capacidade de adaptação ao longo do tempo.


Por outro lado, ambientes com baixa variabilidade social e cognitiva, como rotinas altamente previsíveis e solitárias, estão associados à redução da plasticidade sináptica e à maior vulnerabilidade ao declínio cognitivo.

(Cacioppo & Hawkley, Trends in Cognitive Sciences, 2009)


Quando a convivência diminui, o impacto também é biológico


O isolamento social tem sido associado a:


  • maior risco de doença coronariana

  • maior incidência de acidente vascular cerebral

  • aumento de marcadores inflamatórios sistêmicos

  • pior desempenho em memória episódica


Uma meta-análise publicada na revista Heart demonstrou que indivíduos socialmente isolados apresentam:


  • aumento de 29% no risco de doença cardíaca

  • aumento de 32% no risco de AVC

(Valtorta et al., 2016)


Além disso, revisões na Nature Reviews Neuroscience indicam que a solidão crônica pode levar à ativação prolongada do eixo hipotálamo–hipófise–adrenal, promovendo:


  • elevação sustentada de cortisol

  • disfunção autonômica

  • redução da variabilidade da frequência cardíaca

(Cacioppo & Cacioppo, 2014)


Ao longo do tempo, esses fatores contribuem para:

  • disfunção endotelial

  • pior perfusão cerebral

  • progressão de doença de pequenos vasos


E se a convivência pudesse acontecer sem sair de casa?


Avanços recentes têm permitido que atividades tradicionalmente realizadas em grupo, como exercícios físicos supervisionados, treinos cognitivos, aulas ou encontros sociais, passem a ocorrer por meio de plataformas digitais interativas.


Mas a questão não é apenas tecnológica. É neurológica.


Estudos demonstram que atividades realizadas em grupo, por meio de videoconferência interativa, são capazes de:


  • melhorar memória episódica

  • manter função executiva

  • aumentar o engajamento cognitivo


em comparação com atividades semelhantes realizadas de forma individual.

(Dodge et al., Alzheimer’s & Dementia, 2015)


Outro estudo publicado no Journal of Medical Internet Research avaliou intervenções sociais mediadas por tecnologia e observou:


  • redução significativa de sintomas depressivos

  • maior frequência de interação social

  • maior adesão a atividades físicas e cognitivas

(Choi et al., 2020)


O cérebro responde à interação, mesmo quando ela acontece à distância


Estudos de neuroimagem funcional indicam que interações sociais síncronas realizadas por vídeo são capazes de ativar:


  • córtex temporal superior

  • córtex pré-frontal medial

  • sistema límbico


regiões envolvidas no processamento de linguagem, empatia e emoção.

(Hasson et al., Trends in Cognitive Sciences, 2012)


Essa ativação coordenada sugere que o cérebro responde à:

participação ativa em atividades compartilhadas

mesmo quando mediadas por tecnologia.


Pessoa idosa participando de uma atividade em grupo por videochamada no conforto de sua casa, interagindo com outras pessoas em tempo real.

Trazer a comunidade para dentro de casa


À medida que envelhecemos, sair pode se tornar mais difícil. Mas isso não significa que a convivência precise desaparecer.


Participar de atividades em grupo, conversar, aprender e interagir com outras pessoas, mesmo sem sair de casa, pode representar uma forma consistente de:


  • manter rotina

  • preservar cognição

  • sustentar vínculos

  • manter autonomia


Talvez o envelhecimento ativo não dependa apenas de ir até a comunidade.

Mas de encontrar novas formas de:

trazê-la para dentro de casa.

Dr. Raphael Kaeriyama - Nandarê



 
 
 

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