Entre um domingo e outro, existe uma semana inteira
- Dr. Raphael Kaeriyama

- há 11 minutos
- 4 min de leitura
Há uma mudança silenciosa que costuma acontecer com o passar dos anos, e ela raramente aparece nos exames de rotina.
O telefone passa a tocar menos. Os compromissos se tornam mais espaçados. As conversas diminuem. E, aos poucos, os dias começam a se parecer entre si.
Não necessariamente por tristeza, abandono ou falta de cuidado. Muitas vezes, tudo parece estar sob controle. A pessoa continua morando em casa, se alimentando bem, mantendo sua autonomia e sua independência. Os filhos visitam aos fins de semana. Há conforto, segurança e familiaridade.
Mas, entre uma visita e outra, existe uma semana inteira.
E dentro dessa semana, um fenômeno pouco discutido começa a se instalar: a ausência de convivência diária significativa.

O paradoxo do tempo: nunca tão ocupado, nunca tão vazio
É comum ouvir de pessoas que envelhecem em casa que “não têm tempo para nada”. A rotina ainda existe:
organizar a casa
preparar refeições
assistir televisão
resolver pequenos afazeres
Mas, ao mesmo tempo, há a sensação persistente de que pouco foi feito ao final do dia.
Esse paradoxo: sensação subjetiva de ocupação com baixa variabilidade de experiências, tem impacto direto na forma como o cérebro processa memória, motivação e percepção de propósito.
A neurociência chama isso de empobrecimento ambiental (environmental impoverishment).
Ambientes previsíveis, com baixa variabilidade social e cognitiva, reduzem a estimulação de múltiplos sistemas neurais simultaneamente, e especialmente:
córtex pré-frontal dorsolateral (planejamento e atenção)
hipocampo (memória episódica)
córtex cingulado anterior (motivação)
rede de modo padrão (default mode network)
Ao contrário do que se imagina, o cérebro não se mantém funcional apenas por estar ativo metabolicamente. Ele precisa de:
novidade
interação
desafio
feedback social
Sem isso, há redução progressiva de plasticidade sináptica e conectividade funcional.
A casa, da forma como é hoje, protege mas não estimula
Envelhecer em casa é um desejo legítimo.
Estudos internacionais mostram que mais de 80% dos adultos acima de 65 anos preferem permanecer em suas residências ao invés de migrar para ambientes institucionalizados (AARP, 2021).
A casa oferece:
proteção física
previsibilidade
autonomia
identidade
Mas a maioria das residências não foi desenhada para promover:
estímulo cognitivo
engajamento social
rotina compartilhada
aprendizado contínuo
Em outras palavras:
A casa protege do risco físico, mas pode expor ao risco funcional.
E esse risco tem nome: solidão social crônica.
Solidão não é apenas um sentimento. É um fator de risco para a saúde
A literatura médica dos últimos 10 anos tem sido clara ao tratar solidão e isolamento social como determinantes independentes de saúde.
Uma meta-análise publicada na revista PLOS Medicine avaliou mais de 3,4 milhões de indivíduos e demonstrou que:
O isolamento social está associado a um aumento de 29% no risco de mortalidade (Holt-Lunstad et al., 2015)
Outro estudo longitudinal com mais de 480 mil participantes, publicado na Nature Human Behaviour, demonstrou que indivíduos socialmente isolados apresentaram:
aumento de 32% no risco de acidente vascular cerebral (AVC)
aumento de 29% no risco de doença coronariana
(Valtorta et al., 2016)
A solidão também está associada a:
aumento de níveis de proteína C reativa
maior atividade inflamatória sistêmica
disfunção endotelial
elevação sustentada de cortisol
(Cacioppo et al., Nature Reviews Neuroscience, 2014)
Impacto cardiovascular da solidão
A ausência de convivência regular está associada à ativação crônica do eixo:
Hipotálamo – Hipófise – Adrenal (HPA)
Isso leva à liberação contínua de:
cortisol
catecolaminas
citocinas pró-inflamatórias
Ao longo do tempo, esse estado promove:
aumento da pressão arterial
rigidez arterial
disfunção autonômica
redução da variabilidade da frequência cardíaca
Em termos clínicos, isso se traduz em:
maior risco de fibrilação atrial
maior risco de infarto
pior controle glicêmico
progressão de doença de pequenos vasos cerebrais
(Uchino et al., Psychosomatic Medicine, 2018)
E o cérebro sente primeiro
Em adultos mais velhos, a solidão tem sido associada a:
redução de volume hipocampal
menor conectividade funcional
maior deposição de beta-amiloide
pior desempenho em memória episódica
Um estudo publicado na JAMA Psychiatry demonstrou que indivíduos socialmente isolados apresentaram maior carga de hiperintensidades da substância branca e maior risco de declínio cognitivo ao longo de 5 anos (Donovan et al., 2017).
Além disso, há evidência de que o isolamento social:
acelera a progressão de demência em até 20% independentemente de fatores genéticos.
Convivência como cuidado
A partir desse ponto, a convivência deixa de ser apenas um aspecto emocional da vida cotidiana. Ela passa a ser:
um componente de saúde pública.
Interações regulares — mesmo mediadas por tecnologia — estão associadas a:
melhora da adesão terapêutica
maior regularidade de atividade física
manutenção de função executiva
menor risco de hospitalização
(Fakoya et al., BMJ Open, 2020)
Envelhecer em casa continua sendo um objetivo válido
Mas talvez seja necessário repensar o que significa “estar em casa”. Porque autonomia não deveria significar:
silêncio
repetição
ausência de convivência
E sim:
rotina compartilhada
participação
pertencimento
Mesmo quando a presença acontece à distância.
Dr Raphael Kaeriyama ∴

Dr Raphael é especialista em Medicina Preventiva e atua na Nandarê, centro de longevidade em São Paulo.
Referências
Holt-Lunstad J et al. Loneliness and Social Isolation as Risk Factors for Mortality. PLOS Medicine, 2015.
Cacioppo JT & Cacioppo S. Social Relationships and Health. Nature Reviews Neuroscience, 2014.
Valtorta NK et al. Loneliness and Risk of Coronary Heart Disease and Stroke. Heart, 2016.
Donovan NJ et al. Social Isolation and Cognitive Decline. JAMA Psychiatry, 2017.
Uchino BN et al. Loneliness and Cardiovascular Risk. Psychosomatic Medicine, 2018.
Fakoya OA et al. Loneliness and Health Outcomes. BMJ Open, 2020.




Comentários