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Entre um domingo e outro, existe uma semana inteira

Há uma mudança silenciosa que costuma acontecer com o passar dos anos, e ela raramente aparece nos exames de rotina.


O telefone passa a tocar menos. Os compromissos se tornam mais espaçados. As conversas diminuem. E, aos poucos, os dias começam a se parecer entre si.


Não necessariamente por tristeza, abandono ou falta de cuidado. Muitas vezes, tudo parece estar sob controle. A pessoa continua morando em casa, se alimentando bem, mantendo sua autonomia e sua independência. Os filhos visitam aos fins de semana. Há conforto, segurança e familiaridade.


Mas, entre uma visita e outra, existe uma semana inteira.


E dentro dessa semana, um fenômeno pouco discutido começa a se instalar: a ausência de convivência diária significativa.


Solidão é um fator de risco para doenças

O paradoxo do tempo: nunca tão ocupado, nunca tão vazio


É comum ouvir de pessoas que envelhecem em casa que “não têm tempo para nada”. A rotina ainda existe:


  • organizar a casa

  • preparar refeições

  • assistir televisão

  • resolver pequenos afazeres


Mas, ao mesmo tempo, há a sensação persistente de que pouco foi feito ao final do dia.

Esse paradoxo: sensação subjetiva de ocupação com baixa variabilidade de experiências, tem impacto direto na forma como o cérebro processa memória, motivação e percepção de propósito.


A neurociência chama isso de empobrecimento ambiental (environmental impoverishment).


Ambientes previsíveis, com baixa variabilidade social e cognitiva, reduzem a estimulação de múltiplos sistemas neurais simultaneamente, e especialmente:


  • córtex pré-frontal dorsolateral (planejamento e atenção)

  • hipocampo (memória episódica)

  • córtex cingulado anterior (motivação)

  • rede de modo padrão (default mode network)


Ao contrário do que se imagina, o cérebro não se mantém funcional apenas por estar ativo metabolicamente. Ele precisa de:


  • novidade

  • interação

  • desafio

  • feedback social


Sem isso, há redução progressiva de plasticidade sináptica e conectividade funcional.


A casa, da forma como é hoje, protege mas não estimula


Envelhecer em casa é um desejo legítimo.


Estudos internacionais mostram que mais de 80% dos adultos acima de 65 anos preferem permanecer em suas residências ao invés de migrar para ambientes institucionalizados (AARP, 2021).


A casa oferece:


  • proteção física

  • previsibilidade

  • autonomia

  • identidade


Mas a maioria das residências não foi desenhada para promover:


  • estímulo cognitivo

  • engajamento social

  • rotina compartilhada

  • aprendizado contínuo


Em outras palavras:

A casa protege do risco físico, mas pode expor ao risco funcional.

E esse risco tem nome: solidão social crônica.


Solidão não é apenas um sentimento. É um fator de risco para a saúde


A literatura médica dos últimos 10 anos tem sido clara ao tratar solidão e isolamento social como determinantes independentes de saúde.


Uma meta-análise publicada na revista PLOS Medicine avaliou mais de 3,4 milhões de indivíduos e demonstrou que:

O isolamento social está associado a um aumento de 29% no risco de mortalidade (Holt-Lunstad et al., 2015)

Outro estudo longitudinal com mais de 480 mil participantes, publicado na Nature Human Behaviour, demonstrou que indivíduos socialmente isolados apresentaram:


  • aumento de 32% no risco de acidente vascular cerebral (AVC)

  • aumento de 29% no risco de doença coronariana

(Valtorta et al., 2016)


A solidão também está associada a:


  • aumento de níveis de proteína C reativa

  • maior atividade inflamatória sistêmica

  • disfunção endotelial

  • elevação sustentada de cortisol

(Cacioppo et al., Nature Reviews Neuroscience, 2014)


Impacto cardiovascular da solidão


A ausência de convivência regular está associada à ativação crônica do eixo:

Hipotálamo – Hipófise – Adrenal (HPA)

Isso leva à liberação contínua de:


  • cortisol

  • catecolaminas

  • citocinas pró-inflamatórias


Ao longo do tempo, esse estado promove:


  • aumento da pressão arterial

  • rigidez arterial

  • disfunção autonômica

  • redução da variabilidade da frequência cardíaca


Em termos clínicos, isso se traduz em:


  • maior risco de fibrilação atrial

  • maior risco de infarto

  • pior controle glicêmico

  • progressão de doença de pequenos vasos cerebrais

(Uchino et al., Psychosomatic Medicine, 2018)


E o cérebro sente primeiro


Em adultos mais velhos, a solidão tem sido associada a:


  • redução de volume hipocampal

  • menor conectividade funcional

  • maior deposição de beta-amiloide

  • pior desempenho em memória episódica


Um estudo publicado na JAMA Psychiatry demonstrou que indivíduos socialmente isolados apresentaram maior carga de hiperintensidades da substância branca e maior risco de declínio cognitivo ao longo de 5 anos (Donovan et al., 2017).


Além disso, há evidência de que o isolamento social:

acelera a progressão de demência em até 20% independentemente de fatores genéticos.

Convivência como cuidado


A partir desse ponto, a convivência deixa de ser apenas um aspecto emocional da vida cotidiana. Ela passa a ser:

um componente de saúde pública.

Interações regulares — mesmo mediadas por tecnologia — estão associadas a:


  • melhora da adesão terapêutica

  • maior regularidade de atividade física

  • manutenção de função executiva

  • menor risco de hospitalização

(Fakoya et al., BMJ Open, 2020)


Envelhecer em casa continua sendo um objetivo válido


Mas talvez seja necessário repensar o que significa “estar em casa”. Porque autonomia não deveria significar:


  • silêncio

  • repetição

  • ausência de convivência


E sim:

  • rotina compartilhada

  • participação

  • pertencimento


Mesmo quando a presença acontece à distância.


Dr Raphael Kaeriyama



Envelhecer em casa não precisa significar estar sozinho. Entenda como a falta de convivência impacta a saúde cognitiva e cardiovascular ao longo do tempo.

Dr Raphael é especialista em Medicina Preventiva e atua na Nandarê, centro de longevidade em São Paulo.


Referências


  • Holt-Lunstad J et al. Loneliness and Social Isolation as Risk Factors for Mortality. PLOS Medicine, 2015.

  • Cacioppo JT & Cacioppo S. Social Relationships and Health. Nature Reviews Neuroscience, 2014.

  • Valtorta NK et al. Loneliness and Risk of Coronary Heart Disease and Stroke. Heart, 2016.

  • Donovan NJ et al. Social Isolation and Cognitive Decline. JAMA Psychiatry, 2017.

  • Uchino BN et al. Loneliness and Cardiovascular Risk. Psychosomatic Medicine, 2018.

  • Fakoya OA et al. Loneliness and Health Outcomes. BMJ Open, 2020.


Envelhecer em casa não precisa significar estar sozinho. Entenda como a falta de convivência impacta a saúde cognitiva e cardiovascular ao longo do tempo.

 
 
 

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